segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

INTERMEDIÁRIOS






Intermediar. Quando a reforma agrária aconteceu nós, os que estávamos a dar uma mão fazendo outras actividades, teatro por exemplo, pichagens letradas nas paredes caiadas para o Sindicato Agrícola, a TERRA A QUEM A TRABALHA, pensámos as relações entre produtores e consumidores. Era, na altura, imediato, pensar que consumidor e cidadão eram a mesma pessoa. E quando os mercados de produtos à venda pelos produtores aconteciam, por exemplo, no Rossio de São Brás em Évora -- quem se lembra? -- quem comprava eram os cidadãos que como consumidores estavam conscientes de que assim, comprando directamente, davam cabo das intermediações, dos famosos intermediários. Dizer INTERMEDIÁRIOS ERA COMO QUASE DIZER FASCISTAS - tinham, estes tipos, margens de lucro que faziam da intermediação o negócio dos negócios e da produção-criação uma actividade subalterna - isto é, quem produzia ganhava menos do que quem distribuía e expunha, vendia por ter adquirido para vender ganhando com isso uma margem pelo acto da exposição e venda, comércio absoluto erguido sobre o gesto do parto. Talvez fosse um excesso chamar fascistas aos intermediários, mas alguns eram-no mesmo, fruto da sua posição no encadeamento da sobrevivência para uns e do negócio para outros. Era um excesso, convenhamos. A distribuição é uma necessidade estrutural. O que não pode é fazer-se contra a criação, contra a semeação, acompanhamento, tratamentos faseados - podas, desparramentos, limpezas - e colheita das produções.
Se pensarmos em literatura a questão é semelhante. Que direito têm as editoras monopolistas e os distribuidores, as cadeias de livrarias de cobrar sobre o livro criado percentagens de lucro à cabeça que impedem que o autor e a pequena editora sobrevivam? 35%? 40%? Em cima dos custos de edição, grafismos, maquetas página a página, arrumações textuais, montagens de texto e tipografia? Qualidade das capas e tipos de letra? Gramagens e qualidade do papel? Etc., e tal? E direitos de autor, claro, pois o escriba de serviço, que ganharia? E o autor das ilustrações, havendo? Viver disso nesta engrenagem em que se é o elo pobre e fraco só mesmo para bestas sellers, uns talentosos e inventivos, alcandorados a nobel ou o que seja, outros palha bem sucedida, isto é, contando com ruminantes dedicados, militantes da causa dos sucessos, consumidores pavlovizados, inteiriços de mente como o bacalhau à peça, engrenados.
No mundo dos chamados programadores é a mesma coisa: uns criam e outros são donos, distribuidores compradores das criações. E compram ao pacote, que é mais em conta. Como o fazem outros, idêntico tipo de capatazes, com outros tipos de mercadorias. Comprar um menu de standard's de jazz em pacote, mais ou menos nice, um bocado de música pimba, um stand-up cómico saído da última graçola com estatística de quantidade de riso garantido em volume sonoro autenticado, mais um complemento de cozinha gourmet em show de preferência em francês legendado em inglês legendado em culinês, mais um ciclo de cinema clássico rápido e em resumos estilizados, em preto e branco melhorado, para um minoria garantida, mais um circo chinês internacional e um lago dos cisnes russo em versão checa requentada, com sabor ainda cheirando aos restos do Lenine embalsamado, é, de facto, atingir o cume da excelência como programador, olheiro escrutinador selectivo de menus de xcelência garantida na diversidade da oferta cadastrada, na tal relação preço/qualidade - Oh Zeus!! face ao mercado possível. Claro, o que há em Nova Iorque, e na Broadway, não é possível, só indo lá - o mesmo relativamente a Londres e a Berlim, a Paris e a Pequim - isto, que aqui há, é o que que há cá e pode ser cá, depois de ter sido lá, onde for na origem, há trinta anos ou nem tanto, vinte, ou dez. O exemplo da Orquestra de Gleen Miller brada aos céus, mas o bafio concorrencial dos cemitérios em actividade está, entre nós, no seu esplendor.
E tudo em resultado de fundos europeus aplicados em edifícios que só não são elefantes brancos porque estão disfarçados de elefantes verdadeiros, com capatazes à frente, domadores, verdadeiras criaturas do comando, comandos. E que dirigem equipas de maneira totalitária, autoritária, como o o Senhor Chin da Boa Alma os seus carregadores. Voltámos a uma espécie de escravatura, light, já quase temos salário uns euros menos mínimo e horas de compensação, estamos no paraíso.
Isto não é um país, é um isto, um aquilo. Uma coisa. Nem assunto, um quisto talvez, uma tristeza, um dente cariado. É mesmo difícil, no meio de tanta desistência, empurrados para a orla, alertar com a chama crítica ao meio e realizar a resistência...
Fernando Mora Ramos


sábado, 14 de janeiro de 2017

Vale o que vale, mas ...


Do jornal Expresso desta semana


Alerta feito por leitor do Elitario Para Todos.

PROLONGAMENTO DA AGONIA

do JL de 4 a 17 de janeiro 2017


A leitura da entrevista a que se refere a imagem levou-nos a post anterior:DOS PROBLEMAS DA CULTURA.  Porquê? A entrevista aumenta a DESILUSÃO  que já parece sem retorno.
Confirma que o atual governo na cultura  apenas se limita, no essencial, a prolongar a agonia que disse ir combater. Há momentos na entrevista que, de tão decepcionantes e  por pudor, inibem qualquer comentário. O que dizer, por exemplo, ao ler-se isto: «Conhecemos os problemas de todos os grupos, mas nenhum deles nos manifestou a intenção de fechar».Será que o Governo está em estado de negação quanto à cultura e às artes!
Não o vamos fazer, pelas razões anteriormente adiantadas, ainda assim: o que é dito na entrevista é facilmente rebatido pelos factos,  face ao programa do governo, tendo em conta a formulação das politicas públicas, e as politicas públicas em curso noutros setores. Onde tudo aconteceu de forma diferente do que o responsável da cultura resignadamente aceita como única possibilidade. Não será por acaso que «Possibilista» é termo seu. Bem, não desistamos, lembremos que  «o nosso sucesso depende da nossa participação» - diz Obama na hora da despedida -,  e   que a esperança é necessária.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Não pode estar a acontecer ...

 
Do jornal Público de 13JAN 2017


Este blogue é cada vez mais feito pelos seus leitores. E foi um leitor que nos enviou a notícia da imagem. E depois procurámos saber mais, e encontrámos no Porto Canal isto (destaques nossos):

«Cristina Carvalhal não quis ser "figura decorativa" no Teatro Viriato - Câmara de Viseu

Viseu, 12 jan (Lusa) - O presidente da Câmara de Viseu, Almeida Henriques, esclareceu hoje que a atriz e encenadora Cristina Carvalhal decidiu não suceder a Paulo Ribeiro na direção do Teatro Viriato por não querer ser uma mera "figura decorativa".
"A Cristina Carvalhal aceitou o desafio de uma direção artística, mas recusou o convite para ser um fantoche de diretor artístico ou consultor ou relações públicas para inglês ver", contou o autarca aos jornalistas.
Após a saída do bailarino e coreógrafo Paulo Ribeiro para a Companhia Nacional de Bailado, Almeida Henriques sugeriu ao Centro de Artes do Espetáculo de Viseu (que gere o Viriato - teatro municipal) o nome de Cristina Carvalhal, mas, a 29 de dezembro de 2016, Paula Garcia (que exercia as funções de diretora adjunta desde 2007) foi anunciada como sendo a nova diretora-geral e de programação.
Almeida Henriques explicou que, a 29 de novembro, numa reunião com o ministro da Cultura, foi acordada "uma visão sobre a nova direção e a renovação do projeto do Teatro Viriato" e também "o perfil do novo diretor e um nome de um criador de dimensão nacional".
"Recebi nessa reunião luz verde do senhor ministro e do senhor secretário de Estado para encetar os contactos. No início de dezembro, reuni com a artista em causa, que sempre foi o nome que esteve em cima da mesa, Cristina Carvalhal", acrescentou.
Segundo o autarca social-democrata, a artista aceitou o desafio, "incluindo os termos financeiros pouco atrativos, disponibilizando-se para desenvolver o projeto em diálogo com o CAEV".
Almeida Henriques referiu que "as coisas não correram bem" no CAEV, porque, "na prática, a pessoa escolhida foi desconvidada".
"Há muitas formas de desconvidar alguém para um lugar, uma delas é subtrair funções, subtrair autonomia e subtrair liberdade. O que é um diretor artístico que não dirige artisticamente? Não é um diretor artístico, é uma fachada de um diretor artístico", considerou.
Na sua opinião, "um diretor artístico que não tem a última palavra a dizer na criação da programação de uma casa ou a quem só são pedidas opiniões, não é um diretor, é um consultor"». Continue a ler.

Perante o que nos é dado ler, parece que há pelo menos dois sistemas de intervenção do Ministério da Cultura nas artes: um que não impede que a CORNUCÓPIA (e outros agentes culturais) encerrem; outro (de que sabemos pela comunicação social) que conduz a que o Ministro da Cultura intervenha na gestão de um projeto especifico a níveis bem concretos.
Se alguém ainda tem dúvidas de que a organização do SERVIÇO PÚBLICO na esfera das artes está esgotada, e que tem de ser reinventada, isso deve estar a desvanecer-se  ...



quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

«Deputada do PCP diz que Estado deve apoiar financeiramente a PLataforma das Artes»



 
Tirado daqui.


E a partir do «O Comércio de Guimarães», de 4 de janeiro de 2017, pode ampliar-se a notícia da imagem, lá pode ler-se:

«(...).“Apesar da Câmara Municipal de Guimarães já ter assegurado as condições financeiras, isso não pode ser totalmente assumido pela Autarquia. De facto, pelo espírito da Constituição, é ao Estado que compete isso e não estando o Estado a assegurar, tem de atribuir verbas para garantir esse apoio e, consequentemente, da fruição cultural”, acrescentou. É neste contexto que a Deputada do PCP promete questionar o Governo na Assembleia da República. E se já não é possível atribuir apoio financeiro à Plataforma das Artes por via do Orçamento de Estado para este ano de 2017 que já está aprovado, Carla Cruz lembra que há outras formas de assegurar esse apoio este ano. “Há, efectivamente, outras formas de conceder esse apoio e entendemos que esses apoios devem ser concretizados”, referiu. E se é verdade que já há contactos nesse sentido entre o Ministério da Cultura e a Câmara Municipal de Guimarães,Carla Cruz assegura que vai “pedir esclarecimentos, nomeadamente quais os montantes envolvidos e qual a operacionalidade, ou seja, quando é que vão ser adjudicados porque entendemos que são fundamentais para garantir a função da Plataforma das Artes que é muito importante para o concelho de Guimarães, para a região e para o País”. A Deputada do PCP lembra que a falta desse apoio condiciona o trabalho que a Plataforma das Artes desenvolve em prol do Concelho e da região.
“Com os apoios reclamados talvez se pudesse fazer mais”, de resto, “tal como nos transmitiu a Administração, na certeza de que é possível fazer mais tendo mais meios, nomeadamente tendo mais funcionários, mais meios para a promoção, divulgação e mesmo ao nível da programação. Mas importa salientar que pese embora as limitações que tem, a Plataforma das Artes tem desenvolvido um trabalho que é de valorizar e que é de muito relevo para a região”, concluiu».

Senhora Deputada, é de louvar o empenho em defesa das artes mas, ainda que mal se pergunte, é assim que as coisas se devem processar!, caso a caso? Não vamos por aí, a nosso ver, a situação da Plataforma das Artes deve ser abrangida por um sistema para todos, com regras claras. E tanto o Partido do Governo como os Partidos que apoiam a solução governativa disseram que o sistema de apoios às artes tinha de ser refundado. Então, onde ficamos! E, de facto, tudo aponta - é público, muitos há que isso defendem em termos estruturantes -   para que  esse novo sistema preveja Projetos que  sejam desenvolvido em parceria, nomeadamente envolvendo o CENTRAL e o LOCAL. Talvez para esta discussão não fosse despropositado ver o que se passou com os CENTROS REGIONIAS do passado. E já agora, talvez seja de discutir o que efetivamente deve competir à Administração Central por um lado, e às Autarquias, por outro, no que diz respeito à cultura e às artes.  Delimitar responsabilidadaes é capaz de não ser mau..., e ver o TODO e não apenas a parte é capaz de ser avisado. E não andarem todos a dar, ou a não dar, «para o mesmo peditório», sem coordenadas, dominados pela tirania do curto prazo.
Enfim, o que mais iremos ver neste pântano em que se transformou o setor ...
Mas nem tudo está perdido, há gente atenta, em particular leitores empenhados que vão reparando nestas coisas, e delas nos dão conhecimento, doutra forma este post não teria sido possível.
Ó novas tecnologias, ainda bem que nos permitem escrutínios nunca antes vistos !

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

INDÚSTRIA MUSICAL | «Eurosonic»


«Entre hoje e sábado Groningen viverá uma agitação já familiar naquela cidade do nordeste da Holanda. Desde 1986 que ali se organiza o Eurosonic. É um festival para o público, obviamente, mas os seus objectivos vão além da fruição musical por parte da assistência. Durante quatro dias, Groningen atrai agentes, managers, promotores e representantes de festivais de todo o mundo, mas maioritariamente europeus, em busca de talentos que possam acrescentar aos seus catálogos ou festivais. Este ano, as atenções estarão centradas em Portugal, país escolhido pela organização como destaque do festival. Estarão na Holanda 23 bandas portuguesas e os mais diversos agentes da indústria portuguesa. Ainda o Eurosonic não começara e Nuno Saraiva, da Why Portugal?, plataforma para a internacionalização da música portuguesa, e vice-presidente da Associação de Músicos, Artistas e Editoras Independentes (AMAEI), dizia ao PÚBLICO: “missão cumprida”. Para aferirmos o impacto que pode ter a passagem pelo Eurosonic e a actuação perante os olhos atentos de agentes de todo o mundo, basta citar alguns nomes que, passando ali relativamente incógnitos, se tornaram pouco depois destaque no cenário musical. Aconteceu a James Blake, Benjamin Clementine, The xx, Anna Calvi e Stromae. Ou aos Buraka Som Sistema, que deram ali um passo decisivo para a internacionalização, e a Batida, a criação de Pedro Coquenão que, na sequência da passagem pelo Eurosonic, entrou directamente no roteiro de festivais europeus. (...)». Continue a ler.

  




No Elitário Para Todos, somos pelo serviço público na cultura e nas artes e, ao mesmo tempo, pelo mercado, e na circunstância pela indústria musical, por isso: Viva o Eurosonic ! Parabéns aos profissionais portugueses que garantiram o destaque que é dado a PORTUGAL no Eurosonic 2017. 
E neste quadro, uma chamada de atenção para este trabalho, também no Público:

“Sinto que há neste Governo consciência do valor das indústrias criativas”


De lá:«(...) Quando a AMAEI se formou, houve um evento no Canadá, o Canadian Music Week, que tinha Portugal e Espanha como países em destaque. Isto aconteceu depois de o Governo de Passos Coelho acabar com o Ministério da Cultura. Portugal tinha sete artistas, Espanha seis. Espanha tinha dois organismos estatais a apoiar com 100 mil euros cada, nós não tínhamos nada. Os artistas pagaram do seu próprio bolso. Isso permitiu-nos uma aprendizagem do caminho que tínhamos pela frente.
 Algo mudou daí para cá?
Neste momento uma instituição como a Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) surge pela primeira vez no apoio à música moderna portuguesa. Para além de conseguirmos mostrar a música portuguesa aos programadores europeus, conseguimos esse efeito interno de ter o AICEP a custear o Portugal Lounge [no Eurosonic]. E conseguimos uma candidatura à DGArtes para custear as viagens dos primeiros dez artistas. (...)». Leia na integra.Ora,  aqui está um problema a resolver, relacionado com o «delimitar de águas» e com o que compete a quem. Em síntese e  ligando com outras problemáticas:

  • Serviço público/Mercado
  • Profissional/Amador
  • DGARTES/AICEP/CAMÕES/ ...
  • Central/Local
  • Atividade global/internacionalização 
  • Atividade global/Festivais / ...
  •  
Ou seja, muito por fazer. E dado onde estamos, temos de começar por fixar o ponto de partida. Como se vê, muito para lá de uma emenda aqui, e outra ali, nos regulamentos de apoio às artes através da DGARTES. Mas quem nos ouve?, quem leu o Programa do Governo e os Programas Eleitorais dos Partidos que apoiam a solução governativa? Quem estará a olhar à volta, e para dentro da Administração? ...